quarta-feira, 14 de julho de 2010

Mais vale nunca

Desde há uns anos para cá que sempre que oiço uma musica dos G.N.R. que sinto uma dorzinha no peito , um aperto pouco saudável que me "aflige"de cada vez que oiço. Chama-se "mais vale nunca" e a letra não tem nada de espectacular nem o videoclip esta carregado de efeitos especiais e miúdas giras. Limita-se a falar de algo que acontece a todos nós, algo por que todos passamos mas ao qual ninguém da importância: crescer.

Eu tenho um medo terrível de Crescer. Não falo do crescer físico em que ganhamos mais uns centímetros, mudamos de corpo e de feições, deixamos de usar vestidinhos com flores ou calçoes ás riscas pois estes não são feitos no nosso tamanho. Falo do crescer por dentro, do crescer como ser/individuo numa sociedade.

Agora é a doer
Mais vale nunca
Nunca apetecer
Mais vale nada
Nunca escolher
Mais vale nunca mais crescer

Este verso é, sem duvida alguma, o que mais mexe comigo.é apartir de uma certa idade, diria , começando com os primeiros rebentos de adolescencia ,que se dá dentro de cada uma, começamos quase que automaticamente a recusar-nos ou a impormos-nos certos e determinados comportamentos, ou a ausência deles, pois "já não é bem visto". Já não podemos fazer Esta ou Aquela coisas pois já não temos idade para a fazer, porque os nossos amigos já não a fazem, porque o pai ou a mão dizem que já somos demasiado crescidos.

Lembro-me da pressa que tinha para Crescer. Para ter as chaves de casa, o que me permitia vir sozinha da escola sem estar dependente de alguém para me ir buscar, lembro de sonhar com o dia em que teria a carta e já nada ficava longe pois bastava conduzir ate lá, lembro de querer sair a noite, usar saltos altos, ter dinheiro e fazer com o meu tempo, o que bem me entendia.

Agora que fiz, e continuo a fazer tudo isto, tenho umas saudades terríveis do que fazia na altura em que sonhava com tudo isto.

Adoro andar de baloiço, sempre adorei. Não entendo ate hoje o que pode ter de Tao especial um banco suportado por duas cordas/correntes e suspenso numa estrutura metálica ou árvore. Mas era o ponto alto da ida ao parque: o andar de baloiço. Fechava os olhos e deixava-me balançar...mais depressa ou mais devagar, conforme a disposição desse dia, mas era a sensação de quase voar, a liberdade de abrir os braços e sentir o vento a passar por mim. Hoje, se chegar a um parque e roubar o lugar num baloiço a uma criança passo por doida e ainda estou sujeita a um raspanete de um papa ou mama em defesa da sua cria. Baloiços agora..... se for no meu jardim , ou então ás escondidas.
Bonecas. Se vou a uma loja de brinquedos perco-me na secção das meninas, toda muito cor de rosa, muito lollipop, quase cheirando a doces. Repleta de bonecas lindas, perfeitas e sempre sorridentes. Lembro-me das horas que passava a brincar com as minhas, dava-lhes identidades como se de pessoas a serio se tratassem. Hoje já não posso brincar com bonecas porque já não sou criança.
Colo. Quem não gosta de colo, beijinhos, mimos? Quem não se lembra do cheirinho da mãe, aquele perfume tão dela, tão bom, um cheiro que vamos lembrar ate ser-mos velhinhos? Do beijinho no joelho por causa da valente esfoladela que demos ao correr desenfreados num chão cheio de gravilha? Quem nunca fugiu para a cama da mãe porque teve um sonho mau ou porque esta com medo do escuro? Mesmo que ainda hoje o façamos, a receptividade já não é mesma. "O que tens? que te deu?" parece que já passou o prazo de validade para o cupão de mimos e afins que recebemos á nascença, cupão esse que iria expirar no dia em que nos deixássemos de sentir carentes. Mas...e se esse dia não chega!?

Parece que as crianças de hoje tem pressa de crescer, pressa de se tornarem responsaveis, cansados, ocupados,rabugentos e mal humorados. Tem pressa de pagar contas, levantar cedo e deitar tarde, perder anos de vida em filas de transito, aturar patrões ruins e mal pagantes. Tem pressa de sexo, de drogas e de discotecas, tem pressa de bebedeiras, tareias e consequencias. A criançada de hoje não aproveita o que de melhor tem na vida: a infância. Por muito ruim que ela possa ser, ou ter sido, é aquela idade onde quase tudo nos é permitido: ter a cara e a camisola cheia de gelado, sujar as calças com lama porque se andou a correr à chuva, usar totós e laçarotes, dormir com o ursinho , pedir colo à mãe mesmo se esta tiver sem ponta de paciência, juntar as moedas para comprar pastilhas e gomas, ser intimado a tomar banho pois a brincadeira deixou-nos castanhos e a cheirar a sapatos velhos, dormir com a luz acesa, e mais um sem fim de coisas boas que temos com "Aquela" idade.

Os resultados de toda esta pressa estão a vista: adultos acriançados, que acordam um dia com 30 anos completamente fartos da vida que levam e fartos de serem a pessoa que são. Já não se reconhecem , já não sabem porque deixaram de lado as gargalhadas bem sonoras e gostosas, em prol de um bem comedido e comportado sorriso. A sociedade esta frustrada porque já não sabe ser criança, não sabe o bom que é apanhar uma molha no verão ou tomar banho numa fonte publica, porque sim, porque apetece!

Tenho um medo terrível de Crescer. De ficar velha por dentro, ranzinza e queixosa da vida e do mundo. Tenho medo que a rotina e o "porque tem que ser" me domem por completo e apaguem em mim a miúda com totós que passava horas a andar de baloiço.


Há um lixo novo pra limpar ao nascer
Um grito surdo que tentam calar

Vais ouvir e ver
Mais vale nunca
Nunca mais saber
Mais vale nada
Nunca mais querer
Mais vale nunca mais crescer

É tê e vê cérebro em fuga a dominar
Gene preguiçoso e letal
Olha pró que eu faço
Mais vale nunca
Nunca aprender
Mais vale nada
Nunca mais querer
Mais vale nunca mais crescer

Ficas a aprender
Mais vale nunca
Nunca mais saber
Mais vale nada
Nunca mais beber
Mais vale nunca mais crescer

Agora é a doer
Mais vale nunca
Nunca apetecer
Mais vale nada
Nunca escolher
Mais vale nunca mais crescer
Vais ouvir e ver...


Frau Carmo

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